Escola, Conhecimento X Informação

Parece que um dos grandes problemas relacionados com a escola surge com a exigência de acelerarmos os processos de aquisição do conhecimento. As matérias existentes na escola são administradas em uma carga horária bem reduzida e para complicar um pouco as coisas foi adicionado duas novas matérias no currículo, Filosofia e Sociologia.

Uma das queixas nos corredores escolares é o fato de não existindo tempo hábil para as matérias tradicionais, estas ainda irão dividir seu tempo com outras duas, recém chegadas.

Acredito na importância de todas as matérias bem como da necessidade destas no currículo, no entanto, parece ocorrer certa confusão entre o tempo e conteúdo necessário para que alguém possa adquirir um determinado conhecimento e o tempo para aquisição de uma informação.

Parece que, quanto menor o tempo, maior atenção devemos aplicar para com os métodos didáticos na busca da autonomia do estudante.

Gostaria de diferenciar o que aqui chamo de Conhecimento e Informação para que possamos mensurar suas conseqüências.

Podemos chamar de conhecimento toda informação que é compreendida por uma pessoa em seu contexto histórico, social e intelectual, neste sentido, transmitir conhecimento é uma prática que exige um conjunto de informações fundamentadas em sua origem epistemológica.

O termo epistemologia pode ser entendido como sendo o estudo sobre as teorias de como se constitui o conhecimento, suas conexões, crenças e justificações. Conhecer é saber como uma determinada informação foi construída, pensada e fundamentada.

Por outro lado, uma informação é por definição um tipo de conhecimento que não exige necessariamente uma postura crítica sobre os fundamentos ou origem epistemológica. Em uma informação podemos ignorar sua fundamentação e seus pressupostos, aceitar sem maiores questionamentos.

A diferença básica é que uma informação perde o sentido quando fora de seu contexto, enquanto que, o conhecimento (entendido aqui como fundamentação) pode promover sentido em uma informação quando da mudança de contexto.

A informação possui uma vantagem importante, ela pode ser passada e adquirida de forma rápida. Ideal para escolas cuja carga horária não permite maiores elaborações. No entanto traz como prejuízo a falta dos fundamentos e com isso uma baixa criatividade por parte dos alunos.

O conhecimento por sua vez, tem a desvantagem de ser necessário certo tempo e paciência para maturação, o que em uma sociedade veloz como a nossa tende a ser pouco valorizado.

Uma das soluções possíveis para a formação de uma escola regular que promova conhecimento e não apenas informação é o trabalho em equipe com sincronia entre os professores. Neste sentido a História estaria em concordância com a Matemática e com a Física, complementando as bases das informações ali apresentadas. Isso exige dos professores a montagem de uma agenda conjunta onde Física, História e Matemática, por exemplo, caminhem juntas com o mesmo tema. Se na Física o aluno aprende sobre elétrons, na História veria a contextualização de tal conhecimento, na Matemática encontraria os fundamentos dos cálculos e assim por diante.

Ao final teríamos o conjunto sincronizado de informações cujo resultado seria o conhecimento com seus fundamentos, origens, etc.

Na teoria fica redondinho, na prática isso simplesmente se torna inviável para algumas escolas. Vários são os motivos apresentados, como o curto espaço de tempo para as aulas, o individualismo e ausência de comunicação entre os professores, desânimo com os baixos salários e até mesmo devido ao modelo educacional vigente.

Independente dos motivos, muitas escola são provedoras de informações e não gestoras de conhecimento. Não é unanimidade, possuímos boas escolas onde a sincronia entre os professores é possível e o conteúdo ocorre de forma conjunta.

Mas para o caso da escola cuja promoção de conhecimento não é possível, ainda existe a possibilidade do auxílio dos pais e familiares. Algo que também se mostra problemático em certos casos.

Em muitas reuniões para pais, promovida pelas escolas no intuito de melhorar a qualidade do ensino, é visível o fato de alguns pais e familiares entenderem que a responsabilidade na transmissão do conhecimento é exclusivamente da escola e por conta disso não se envolvem com o problema. Outros alegam não possuírem conhecimento suficiente para abordar o assunto, seja por conta de uma baixa escolaridade ou devido ao fato de não lembrarem mais o que um dia estudaram.

Sem tratar o problema dentro da escola e do ambiente familiar pode surgir como conseqüência pessoas capazes de entender informações (dominar técnicas) ainda que precariamente, mas deficientes no tocante ao uso adequado destas interpretações. A capacidade de repetir informações ou técnicas sem o entendimento dos pressupostos pode gerar uma diminuição do senso crítico.

O surgimento do senso crítico ocorre quando perguntamos pela constituição da informação, ou seja, pelas crenças, conexões, veracidade e justificações envolvidas na informação.

Esta percepção onde o conhecimento é reconhecido quando da capacidade de transitar entre os fundamentos de uma dada informação, tem gerado uma série de publicações didáticas com objetivo de suprir a deficiência de certas escolas e dos próprios pais que, por um motivo ou outro, não conseguem trabalhar na fundamentação das informações apresentadas.

Recorrer para estas publicações pode ser um apoio aos que se preocupam com a qualidade do ensino. Perguntar pela fundamentação é uma prática, uma postura que no campo do conhecimento ocorre através do hábito de questionar sobre a veracidade, justificação e crenças envolvidas nas informações ou práticas. Esse parece ser o principal promotor do senso crítico.

No entanto, por ser uma postura, é necessário que o estudante tenha um ambiente que propicie tal estímulo. O conhecimento é a conseqüência de uma caminhada que inicia com as informações, técnicas ou práticas em ambientes controlados como na família ou escola.

No Brasil parece que já existem dificuldades relacionadas com os problemas de algumas escolas do ensino regular e universidades, entre estas dificuldades encontramos a deficiência de profissionais em áreas estratégicas para o desenvolvimento da sociedade, por exemplo, a falta de engenheiros.

Em entrevista para revista Minas faz Ciência de numero 41, o professor e pesquisador Vanderli Fava de Oliveira, aponta para o fato de existir uma demanda por 60 mil engenheiros enquanto o numero de formados é de apenas 35 mil. Um dos problemas para falta de profissionais está associado ao numero de evasão universitária. Mais que a metade dos futuros profissionais não chega ao final da graduação.

Uma boa parte dos estudantes afirma que é a dificuldade dos cursos de engenharia que levam ao processo de desistência. Física e matemática são os principais vilões na opinião da maioria dos alunos.

Na perspectiva de Oliveira, uma solução para as universidades, seria modificar o currículo e métodos dos cursos de engenharia privilegiando a contextualização e um melhor preparo dos professores. Atualmente é preciso dar atenção ao aspecto didático metodológico e ensinar o aluno para que este possa aprender a aprender e não apenas dominar uma técnica. Nas palavras de Oliveira, “A formação tradicional já não dá mais conta do recado. Hoje, a empresa que contrata um engenheiro não quer saber o que ele aprendeu, mas sim o que ele sabe fazer com o que aprendeu.”.

É neste sentido que tento diferenciar Informação de Conhecimento, onde saber o que fazer com um conjunto de informações implica no uso de senso critico e por conseqüência na busca por fundamentações e flexibilidade na construção de conhecimento, ou seja, aprender a aprender.

Para que possamos sair desta estagnação quando ela ocorre é necessário que alguém de o primeiro passo, sendo aconselhável união de esforços entre educadores e familiares.

Ao detectar problemas de estagnação educacional é aconselhável conversar com a escola e professores, como também apoiar o desenvolvimento dos estudantes através de literatura que privilegie o desenvolvimento do senso crítico. Evite a simples reprodução de informação.

Apenas frequentar a escola parece não ser suficiente para a produção de conhecimento tornando-se necessário nas condições atuais de ensino dedicação extra classe com o apoio e envolvimento de familiares.

Seguindo a exigência e evolução do mercado, conhecimento se tornou mais que a reprodução ou domínio de uma técnica, informação ou prática. Tornou-se o preparo e maturação para ir além deste primeiro passo, se constituindo como capacidade de aprender a aprender.


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