Obsolescência e a sociedade de consumo

Uma das grandes ambições dos seres humanos sempre foi a busca da felicidade, até a chegada da modernidade pensava-se em encontrar a felicidade eterna, uma forma de felicidade que era a recompensa pelos pesares e superação dos desejos (sempre malignos!) que a vida impunha ao sujeito, pensava-se que uma vez tendo superado as tarefas da vida, a felicidade seria perene. Com a chegada da modernidade, pensava-se em alcançar A Felicidade, a forma universal de felicidade, que uma vez encontrada estaria a disposição de todos que soubessem seguir as instruções do entendimento racional a fim de contemplá-la.

Até a modernidade, a busca da felicidade era tarefa pública, visando alcançar um conceito universal já preexistente. Na pós-modernidade a busca da felicidade passou a ser tarefa privada, a partir de conceitos efêmeros de felicidade. Dessa forma, o sujeito pós-moderno vive em constante estado de melancolia, pois estando a frente de inúmeras formas de conexões não consegue estar conectado a nenhuma.

Em grande parte, o estado social atual se deve à assimilação e colonização do mercado de consumo sobre o espaço que se estende entre os indivíduos, forjando o que Bauman1 chama de sociedade de consumidores. Ambos se movimentam a partir das três mesmas regras, primeira: todo produto à venda deve ser consumido por compradores; segunda: a satisfação do desejo é o motivo que leva algo a ser consumido; e terceiro: a credibilidade da promessa e intensidade da satisfação do desejo é o que define o preço da mercadoria.

A funcionalidade da sociedade de consumo se dá a partir da alienação do desejo, do querer, do almejar, que uma vez individual agora se torna social, reciclada em forma de uma força externa que coloca em movimento a sociedade de consumidores, ao mesmo tempo em que estabelece parâmetros pontuais para as estratégias efetivas individuais de vida e manipula as probabilidade de escolhas e conduta individual. Na sociedade de consumidores o único valor universal é o consumo como vocação, todos precisam ser, devem ser e tem que ser consumidores, esse é o direito e dever inalienável de todo sujeito pós-moderno.

Ao mesmo tempo em que o desejo passa a ser atributo do campo social, ele passa a funcionar como um mecanismo que a economia define como obsolescência, que é a prática que define a vida útil de um produto, no campo funcional, perceptivo ou planejado.

A sociedade de consumidores é o ambiente existencial vivido a partir da relação entre consumidor e objeto de consumo, onde para ser membro dessa sociedade é preciso a criação de uma identidade como sujeito, só se dando a partir da transformação do indivíduo em mercadoria. Partindo dessa constituição de self como mercadoria, a lógica que valia para objetos no mercado de consumo passa a valer para sujeitos na sociedade de consumidores, utiliza-se do mesmo mecanismo apenas ampliando a gama de mercadorias, agora sendo estendida para o âmbito humano.

Na economia, a obsolescência funcional ocorre quando um produto mais eficiente toma o lugar do antigo. Na sociedade de consumidores a obsolescência funcional ocorre quando uma pessoa mais qualificada ou mais atualizada toma o lugar da antiga, ou seja, uma pessoa com ferramentas mais modernas consegue realizar a mesma função com mais rapidez e em consequência mais economia, já que a sociedade contemporânea presa pela velocidade, que é convertida em mais oportunidades de mercado.

A obsolescência funcional é acompanhada pela obsolescência planejada, que é o mecanismo que projeta a vida útil das coisas para que sejam substituídas em menos tempo, prática muito difundida nas atividades de ensino, que constantemente colocam no mercado um número absurdo de cursos de extensão especializados, fomentando a roda do mercado, que gira da realização à frustração, uma vez que cada especialização é projetada para um determinado nicho e para uma determinada tecnologia, o que nos leva para a questão da funcionalidade novamente, tais requisitos só serão funcionais enquanto o mecanismo para o qual foram inventados não for substituído.

Mas o golpe de minerva desferido pela sociedade de consumo é a obsolescência perceptiva, que se trata de dar uma nova roupagem a algo que ainda tem funcionalidade, mas que por ser reinventado passa a ser mais desejado do que o antigo item. Isso gera um senso de vigilância quase paranoico no sujeito, que como vive em uma sociedade globalizada, é cercado de informação por todos os lados, fazendo com que esteja sempre atento para poder se manter atualizado, já que sua paranoia consiste justamente no medo de se tornar obsoleto.

Para continuar sendo mercadoria na sociedade de consumidores é preciso estar sempre atento ao jogo do consumo, uma vez que a cultura consumista também é a cultura do excesso, implicando que a oferta de mercadoria é muito maior que a procura e é atributo individual tanto o sucesso quanto o fracasso de sua “auto venda”.

Todo sujeito da sociedade de consumidores tem por tarefa fazer de si mesmo mercadoria vendável, o que implica estar em constante movimento, sempre tentando acelerar o ritmo, para se manter no mesmo lugar. A lentidão ou o não movimento são sentenças de morte para o indivíduo pós-moderno. Viver na sociedade de consumidores é ser obrigado a participar do jogo do consumo como jogador solitário. A única liberdade disponível ao sujeito é a de manipular as opções que estão disponíveis no mercado, arcando com toda e qualquer responsabilidade sobre as consequências desses atos.

Assim, encontrar a felicidade na pós-modernidade é uma tarefa exaustiva e frustrante, exaustiva porque pressupõe o contínuo movimento e zelo para que não se pegue distraído ao longo do caminho e implique em perda da marcha; frustrante porque fomenta o caráter instantâneo de todas as coisas, fazendo com que sempre esteja presente que tudo dura por um determinado tempo e sempre é preciso seguir adiante.


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