Descartes e o conhecimento

René Descartes foi um filósofo que viveu no período medieval. O período entendido como medieval se caracterizou pela percepção de mundo enquanto determinado e organizado por Deus, cabendo aos religiosos, portadores da interpretação da vontade divina, o critério de demarcação sobre o que era conhecimento válido. Neste período a organização social, política e cultural ocorria sob orientação e convicção da fé, tendo como cultura predominante o cristianismo.

O cristianismo se consolidou com grande influência da filosofia grega, no entanto, a perspectiva cristã assume uma interpretação diferente da cultura grega e introduz uma ruptura entre o homem, considerado pecador, e Deus, entendido como perfeição, criador e governante do mundo.

Enquanto para os gregos o mundo e os desuses estavam em harmonia sob uma percepção de natureza em eterno retorno - movimento circular – sem uma perspectiva de ilusão ou erro, os cristãos entendiam o mundo pela perspectiva linear, com inicio, meio e fim, em uma natureza criada e controlada por Deus, mas separada deste. O homem era entendido como pecador, dividido e constituído por corpo e alma, matéria e espírito, sujeito a erros e ilusões devido sua natureza pecadora e dividida, entre fé e razão.

Esta perspectiva cristã trouxe para filosofia uma série de questionamentos, entre eles a pergunta sobre como em tais condições, era possível conhecer a verdade. Como o homem finito pode conhecer a verdade infinita ou evitar as ilusões e os erros?

Na época medieval a resposta vigente consistia em afirmar que através da fé o homem iluminava seu intelecto e auxiliado por Deus percebia a verdade revelada.

A filosofia moderna teve seu inicio quando filósofos contestaram a forma medieval de conceber a verdade, e postaram no centro da discussão a questão do conhecimento.

Se a questão central da filosofia medieval consistia na fé e nas obras de Deus, na filosofia moderna a questão central passou para o problema do conhecimento.

Esta passagem do pensamento medieval para o moderno se dá em um processo de desmoronamento sistemático das verdades medievais, onde as concepções até então vigentes foram gradativamente perdendo sua legitimidade.

Um dos filósofos que se destacou neste período foi René Descartes, o autor percebeu que, embora a pluralidade das vozes não seja prova válida para as verdades mais difíceis, os costumes e os exemplos influenciam muito mais que qualquer conhecimento correto. Neste contexto, Descartes aponta para a importância da autonomia da razão como condição de possibilidade para o conhecimento e questiona o pensamento determinista do senso comum de sua época. Se para os medievais, Deus determinava os acontecimentos e a organização da natureza conforme sua vontade, para Descartes, a natureza era constituída por Deus através de uma organização de casualidade e colocada à disposição do homem, que no exercício livre da razão, podia conhecer as coisas exteriores através das idéias e conceitos formulados pelo sujeito pensante.

Em seu método, Descartes privilegia a matemática como mediadora da razão, devendo esta servir de modelo para aquisição de conhecimento em todos os campos, ele afirma que a chave para compreensão do universo se encontra na estrutura matemática.

O método de Descartes prevê que a influência histórica da tradição e o ato do pensamento precipitado devem ser evitados e os problemas abordados devem ser decomposto através do pensamento ordenado e gradual, avançando do mais simples para o mais complexo e assumindo a responsabilidade de uma revisão criteriosa buscando nada omitir. Focado na matemática, Descarte inaugura o pensamento que calcula, este privilegia a técnica e a percepção através da mecanização em uma relação de causa e efeito, demonstrando que a verdade pode ser alcançada através do sujeito do conhecimento.

Podemos entender a filosofia moderna como sendo o período onde surge o sujeito do conhecimento, indagando sobre sua capacidade de conhecer e predominando a idéia da conquista cientifica e da técnica baseada na explicação mecânica e matemática do universo.

De acordo com o texto de Marilena Chauí o problema do conhecimento que a filosofia moderna precisa resolver está na relação entre sujeito e objeto, entre o entendimento e a realidade, tendo como precursores os filósofos, Bacon, Descartes e Locke.

Além de Descarte que defendia o racionalismo, encontramos em Locke, com sua proposta de analisar as formas de conhecimentos existentes e apontando para os diversos graus de conhecimentos que, partindo das sensações até chegar às idéias constituíam a percepção empirista de conhecimento. Descartes de uma vertente racionalista e Locke empirista, defendiam perspectivas diferentes sobre o conhecimento, no entanto, ambos marcam o inicio da filosofia moderna, tendo como parte central de suas reflexões a indagação sobre a capacidade de conhecer e como se dá a verdade.

Francis Bacon de corrente empirista, exaltando a ciência como benéfica ao homem ocupou-se especialmente sobre o problema do conhecimento e do empirismo, sua principal obra esta sob o titulo Novum Organum. Descartes assume como critério para responder sobre o problema do conhecimento, a dúvida metódica, através da qual escreverá sua obra, Discurso do método. John Locke é protagonista da teoria da Tabula Rasa que consiste na afirmação de que todas as pessoas nascem sem saber absolutamente nada e adquirem conhecimento através da experiência empírica.

A grande contribuição da filosofia moderna consiste na inauguração da teoria do conhecimento onde o sujeito pensante coloca-se como objeto de conhecimento para si mesmo, pensando sobre o que é pensado, buscando responder como e o que podemos realmente conhecer.

A convicção racionalista vai orientar também a idéia pela qual a razão é considerada capaz de definir e manter o melhor regime político de uma sociedade, entre os filósofos modernos que defendem esta posição destaca-se, John Locke sendo o primeiro a tratar de uma constituição como poder, onde as leis ficam acima de todos, promovendo direitos iguais. Thomas Hobbes em sua obra, Leviatã e Nicolau Maquiavel com o livro, O Príncipe.

Hobbes foi pioneiro na legitimação do poder sem passar pelas questões divinas, ele entendia que o homem recebe estímulos externos e pressionado por estes age pela necessidade e não pela liberdade. Neste sentido, a racionalidade é adquirida no esforço impulsionado pela necessidade que através da própria razão sugere leis naturais como a moral. A razão tem o propósito de evolução do conhecimento e não a descoberta da verdade.

Na obra Leviatã, Hobbes trata da natureza humana e da necessidade de governos e sociedades. Demonstra que cada um de nós tem o direito a tudo, e uma vez que todas as coisas são escassas, existe uma constante guerra de todos contra todos, no entanto, os homens motivados pelo medo, possuem um interesse próprio de acabar com a guerra, e por isso formam sociedades dispostas a respeitar um contrato social.

Thomas Hobbes defendia a idéia segundo a qual os homens só podem viver em paz se concordarem em submeter-se a um poder absoluto e centralizado, onde um soberano possa assegurar a paz interna e a defesa comum. Este soberano deveria ser o Leviatã, uma autoridade inquestionável.

Maquiavel na obra, O Príncipe, fundamenta sua teoria organizada e pautada na história, seguindo o furor cientifico de sua época, defende uma nova forma de fazer política onde o fim justifica os meios, adota uma teoria utilitarista abordando a realidade enquanto tal. O autor salienta a divisão entre dois tipos de hierarquia dominante, a república e o principado, e inicia descrevendo os tipos de principados (hereditário e misto) e suas características avançando no texto para sugestões em como preservar e manter o regime de principado.

Para Maquiavel nosso destino é decidido metade pela sorte e metade pelo livre-arbítrio, ele alerta que confiar somente na própria sorte facilmente acarreta em ruína, devendo o governante se basear na ciência e não na moral ou na ética.

A passagem da filosofia medieval para moderna ocorre de forma tumultuada e marcada pela crise religiosa, política e intelectual, legitimando uma fundamentação antropocêntrica e uma postura cética. Em um ambiente de incertezas e grande produção intelectual, a verdade e o pensamento deixam de ser descritivo e interpretativo e passam a ser de causalidade – causa e efeito – ordem lógica matemática, instituindo-se uma ciência da natureza.

É no período da filosofia moderna que começa a se formar uma definição de ciência e filosofia, onde antes existia apenas a definição de sábios, agora se aponta para o surgimento de filósofos e cientistas que, dividindo, organizando e categorizando as formas de conhecimentos, promoverão diversas ciências e a filosofia encontrará seu lugar.

Uma importante contribuição para a ciência ocorre em Descartes quando este demonstra o conhecimento da natureza a partir de um método matemático, considerado uma das figuras-chave na revolução científica. Entre suas contribuições está sua sugestão para fusão da álgebra com a geometria, fato que ocasionou o surgimento da geometria analítica e o sistema de coordenadas que hoje leva o seu nome. Outra contribuição de grande importância pode ser encontrada em sua tentativa de estabelecer um método universal inspirado no rigor matemático que privilegie o conhecimento científico.

O problema inicial em Descartes, assim como na filosofia moderna, consiste em diferenciar o verdadeiro do falso e para conseguir tal tarefa que se dá na relação sujeito-objeto. Descartes estabelece uma diferença entre substancia pensante e substancia extensa, onde extensão significa “ser cheio de matéria”. Para Descartes toda matéria possui extensão e movimento, sendo que a razão concebe a extensão pelo método geométrico. Partindo deste raciocínio o universo será considerado um mecanismo criado por Deus, que disponível ao homem, pode ser reduzido ao cálculo.

O universo, afirma Descartes, é um relógio cuja precisão se explica pelo movimento das partes extensas e através da matemática torna-se possível à medição, quantificação. O conhecimento mediado pela matemática permite que nos tornemos “mestres e possuidores da natureza”.

Se a matemática é aplicável à totalidade do real, então o universo possui regras ou leis como aquelas encontradas na própria matemática. Neste contexto, Descartes aponta para algumas destas leis, onde a primeira lei consiste no fato de todas as coisas, que compõem a realidade exterior do pensamento, enquanto simples e indivisas preservam-se sempre no mesmo estado e não se alteram, não mudam a não ser que uma causa externa os ponha em movimento. A segunda lei anuncia que todas as coisas tendem a movimentar-se em linha reta. E a terceira lei, conhecida como a lei ou o princípio da conservação do movimento, diz que no choque de dois corpos entre si, o movimento não se perde, mantendo-se a sua quantidade constante.

É na interpretação destas leis que Descartes deduz toda estrutura do universo e o fato de ser possível reduzir a natureza em um conjunto de regras ou leis de caráter matemático.

Para Descartes a ordem atual do mundo se formou a partir do caos onde a matéria primitiva que era composta de partículas iguais em grandeza e em movimento, que se moviam em torno do próprio centro e em relação com as outras partículas, formando turbilhões que de modos vários e entre si se compõe, deu origem ao sistema e depois à terra. Este universo máquina transfere suas características aos seus componentes, sendo um mecanismo que contempla não só o universo, mas também tudo que nele está contido: Homens, Plantas e Animais.

Ao aplicar uma perspectiva matemática na interpretação da natureza, Descartes refaz os fundamentos da ciência, e, ao assumir como principio a duvida radical e o método analítico, o autor inaugura o conceito de análise. Estas são algumas das contribuições deixadas por Descartes, no que hoje, entendemos como produção e conhecimento científico.


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