Feuerbach e a antropologia da religiosidade

Feuerbach afirma ser Deus uma construção do homem, que primeiramente transporta para fora de si sua essência, depositando em Deus, para depois reencontra-la na negação. Neste sentido a teologia pode ser reduzida à antropologia onde o homem afirma em Deus o que ele nega em si mesmo, promovendo assim um relacionamento com sua própria essência.

O autor entende que a religião é a essência infantil da humanidade assim como a crença da revelação é também uma crença infantil e respeitável enquanto infantil, no entanto, quando a religião vai adquirindo o uso da razão ela se torna teologia fundamentada por uma filosofia especulativa, e como tal, é intencional e busca dar tudo a Deus empobrecendo e negando o homem.

O culto aos animais e à natureza em geral não nos mostra somente o estágio prático da cultura de um povo, mas também sua natureza teorética, seu estágio espiritual em geral; porque, enquanto o homem adora animais e plantas, não é ainda um homem, identifica-se pois com os animais e as plantas, estes são para eles ora seres humanos, ora sobre-humanos (Feuerbach, 1989, p. 48).

Para Feuerbach o homem deve afirmar-se em sua totalidade suplantando a Deus e se apropriando dos seus atributos que nunca deixaram de ser os da humanidade, desta forma, o homem se libertará de uma ficção alienadora e paralisante.

Negando a essência de um Deus transcendente e pessoal, Feuerbach se opõe a concepção cristã de divindade, ocasião em que assume uma postura denominada de ateísmo antropológico.

O ateísmo antropológico expressado por Feuerbach tem como principal argumento o fato da religião ser algo especificamente humano e por isso possui sua razão de ser na essência do homem, sendo assim, é a percepção desta essência humana universal o fundamento e o objeto da religião, onde, o homem cria Deus conforme a sua imagem e a teologia se torna uma mina de mentiras e ilusões perniciosas, pelas diferenças que estabelece entre Deus e os homens que em estado de subordinação devem obediência a um ser superior puramente ilusório.

A água é um produto natural indispensável ao homem; o vinho e o pão são produtos naturais transformados pelo homem, mas também são importantes para sua sobrevivência. Assim, ele comenta, “adoramos na água a pura energia natural, (…) no vinho e pão a energia sobrenatural do espírito, da consciência, do homem” (Feuerbach, 1988, p. 315).

Esta ilusão se fundamenta não só na idéia de Deus, mas também na crença da vida eterna, na ressurreição e no além, negando desta forma as necessidades humanas e oferecendo ilusões que distanciam os homens de suas tarefas cotidianas, afastando-lhes da realidade concreta por conta da espera de um mundo imaginário, neste sentido, a teologia é um esvaziamento do homem que, pensando em Deus pensa apenas a si mesmo de uma forma alienada.

A respeito da influência de Feuerbach Urbano Zilles afirma que: “Tornou-se o pai do ateísmo moderno. Sua influencia passa, através de K. Marx, F. Engels, M. Stirner a F. W. Nietzsche até concepções imanentistas do homem nas filosofias contemporâneas, na idéia de que o homem só é homem na relação com o tu anunciam-se, outrossim, motivos das filosofias da existência e do personalismo contemporâneo.” (Filosofia da religião, p. 118-119).

O ateísmo de Feuerbach é excludente já que tem como proposta aceitar ou o homem ou Deus, neste sentido, o autor opta pela afirmação do homem e conseqüentemente pela negação de Deus, onde para Feuerbach, a essência humana universal é percebida no gênero humano enquanto comunidade e relação social, ou seja, é das características genéricas que constituem a humanidade do homem enquanto sociedade que observamos a essência humana universal. O autor entende que esta essência humana é constituída de razão, vontade e pelo coração.

Tais características não são plenas, mas o homem participa e se define mediante elas, onde se constituem os princípios que animam e determinam o homem.

Religião enquanto movimento antropológico assume um aspecto positivo por ser um momento no processo de conscientização humana em direção a valorização do humano como ser histórico-social. No entanto é negativo enquanto teologia por caracterizar-se como filosofia especulativa e intencional, perdendo a essência infantil da humanidade, proporcionando desta forma, uma dominação alienadora.

Sobre esta questão, Manfredo A. de Oliveira afirma que: “Neste sentido, mesmo que tudo se encaminhe para uma negação, o levantamento da questão de Deus se manifesta como momento necessário no processo de auto-realização do homem, já que em virtude da tensão existencial entre individuo e espécie, só através da reflexão conscientizadora o homem se vai poder liberar da ilusão alienante da religião.” (Filosofia transcedental e religião p. 21).

Este movimento de ascensão do homem constituído na sua historicidade e no processo de suas relações sociais, valorizando a subjetividade, é o ponto culminante da filosofia de Feuerbach com seu antropocentrismo radical, onde o homem é a medida de todas as coisas e da própria realidade.


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