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Movendo-se no desencontro: uma leitura sobre o campo de ação das classes populares em tempos capitalistas

Este texto é resultante de algumas reflexões iniciais de uma pesquisa desenvolvida no curso de doutorado. Mais particularmente constitui um desdobramento de experiências e encontros, acumulados em diferentes espaços acadêmicos e profissionais, e que possuem um eixo comum: a busca por uma maior compreensão da sociabilidade das comunidades pobres do município do Rio de Janeiro e sua relação com o poder público e diferentes esferas da sociedade civil, na forma com que elas vem se manifestando em início do século XXI. Uma sociabilidade que cada vez mais parece se redefinir, indicando uma imagem diferenciada daquela produzida a seu respeito pela ciências sociais ao longo das últimas décadas. Sinal de tempos novos? Indício de que é a hora de jogar fora velhos esquemas e antigos conceitos? Ou quem sabe reelaborá-los, a partir dos desafios trazidos pelo acontecer histórico e pela sociedade em movimento?

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MOVENDO-SE NO DESENCONTRO: UMA LEITURA SOBRE O CAMPO DE AÇÃO DAS CLASSES POPULARES EM TEMPOS CAPITALISTAS

Este texto é resultante de algumas reflexões iniciais de uma pesquisa desenvolvida no curso de doutorado. Mais particularmente constitui um desdobramento de experiências e encontros, acumulados em diferentes espaços acadêmicos e profissionais, e que possuem um eixo comum: a busca por uma maior compreensão da sociabilidade das comunidades pobres do município do Rio de Janeiro e sua relação com o poder público e diferentes esferas da sociedade civil, na forma com que elas vem se manifestando em início do século XXI. Uma sociabilidade que cada vez mais parece se redefinir, indicando uma imagem diferenciada daquela produzida a seu respeito pela ciências sociais ao longo das últimas décadas. Sinal de tempos novos? Indício de que é a hora de jogar fora velhos esquemas e antigos conceitos? Ou quem sabe reelaborá-los, a partir dos desafios trazidos pelo acontecer histórico e pela sociedade em movimento?

No terreno mais amplo da sociabilidade destas comunidades, interessa-nos em especial a ação mediadora de educadores comunitários, principalmente no âmbito de programas sociais, públicos ou particulares.

Ao nosso ver, o trabalho desenvolvido por alguns moradores das comunidades pobres da cidade, contratados por projetos do poder público ou de ONG´s, apresenta-se como desdobramento de processos de inclusão precária e instável que marcam a dinâmica da sociedade atual. E como tal, deve ser compreendido como terreno de contradições, um campo de ação, onde estão colocados dois movimentos que se atravessam: aquele que empurra as pessoas para “dentro”, para a condição subalterna de reprodutores mecânicos do sistema econômico, reprodutores que não reivindiquem, nem protestem em face das privações, injustiças, carências; e aquele que gera a interpretação crítica e a ação dos chamados “excluídos”, isto é sua participação transformativa no próprio interior da sociedade que exclui (martins, 1997).

O movimento que empurra as pessoas para dentro, de certa forma, vai delimitando o campo de ação no qual os atores sociais – e em particular os educadores comunitários- se movem e atuam, buscando formas de enfrentamento de sua sobrevivência, das necessidades e dramas daqueles a quem precisam responder, e dos desafios colocados a suas comunidades. Neste campo, a noção de condições de vida indica uma realidade de empobrecimento econômico e social, que vem implicando o surgimento e agravamento de problemas nas várias dimensões da vida dos grupos populares: saúde, educação, transporte, trabalho etc.

O outro movimento que gera a interpretação crítica e a ação dos chamados excluídos, nos sugere determinadas possibilidades de ação neste campo. Menos visível, ele é um desafio ao pesquisador . Indica pistas a respeito de como os atores sociais se movem, e em que medida o fazem de forma diferenciada, a despeito da identidade de suas condições de vida. Aqui, se coloca a necessidade de operar com um conceito que implique em um eixo de análise que nos faça compreender as alternativas de sobrevivência destes atores e a leitura que eles tem de sua realidade. Levantamos então a idéia que, apesar de inseridos em determinadas condições de vida que conformam seu campo de ação, os moradores das comunidades pobres não respondem reativamente a elas mas atravessados por sua experiência, que implica uma determinada forma de apropriação da realidade e as possibilidades de ação sobre ela.(1)

Considerando estes dois movimentos, e procurando compreender o terreno mais amplo onde se movem os educadores comunitários, ensaiamos aqui uma leitura a respeito do campo de ação dos atores sociais, e dos deslocamentos aí produzidos: aquele que se configura no sentido de empurrá-los para a “ condição subalterna de reprodutores mecânicos do sistema econômico”, e outro que vai delineando a ação e a interpretação crítica dos chamados excluídos. Fazemos isso, primeiro, identificando alguns processos que atravessam historicamente este campo de ação. Depois, buscamos nos aproximar das suas contradições, nas formas de concretas de vida e trabalho, tal como ela vem se manifestando na realidade das comunidades pobres do município do Rio de Janeiro.

Um campo de desencontro

De maneira geral a linguagem exprime mais facilmente as coisas do que as relações, mais os estados do que os processos (Bourdieu, 1994)

Ao evocarmos o campo de ação, no qual os moradores de comunidades se movem, nos vem de imediato a idéia da exclusão social e econômica das classes populares e a precariedade de suas condições de vida. Na última década, possivelmente foi uma das palavras que mais marcou as imagens produzidas e difundidas a respeito da sociedade brasileira.

Com efeito, é um tema inquietante, no sentido que mobiliza a todos que procuram interpretar as mudanças no país e dialogam com as alternativas aí colocadas. É especialmente um tema polêmico que envolve visões diferenciadas e divergentes. Há quem aposte em sua força denunciadora . Quem o adote como um conceito de fundo, em torno do qual se organiza uma parte do saber das ciências sociais mas que aponte os cuidados que seu uso inspira. E há quem o descarte, ressaltando o fato dela referir-se a estados e não processos, e sugerindo ainda seus riscos despontencializadores(2).

Em tempos da nova vulgata planetária, para usar a expressão de Pierre Bordieu e Loïc Wacquant (1998), não é demais inquietar-se com o risco da exclusão estar se tornando um daqueles termos que é tirado do bolso para designar tudo e acaba não falando de nada. E o pior, se assim é, ela se torna, como o próprio José de Souza Martins destacou, uma coisa fixa, um estado irremediável que paira sobre nós como uma fatalidade (1997). Um estado onde não há muito o que fazer, exceto contribuir para apoiar a fila dos assistidos.

Na trilha das advertências de Martins e dando atenção a tudo aquilo que Castel chama das armadilhas da exclusão (1997), pensamos ser necessário buscar um horizonte de análise que torne possível uma maior aproximação da dinâmica histórica e a complexidade do real, que não exprima tanto estados mas processos (CUNHA, 2000). Aqui, pensar ser necessário buscar a historicidade dos processos subjacentes aos conflitos, dramas e experiências sociais que evocam o tema da exclusão.

Se compreendida como tema que indica um conjunto de contradições, experiências e conflitos sociais presentes no mundo contemporâneo, a exclusão possui vida longa. Muito do que temos visto por aqui, e que o pensamento europeu e mesmo norte-americano começa a se familiarizar, nos sugere um dilema que atravessa a história das sociedades capitalistas, marcadas pelo desencontro entre o econômico e o social, este atrasado em relação a aquele. “O econômico anuncia possibilidades que a sociedade não realiza ou realiza com atraso”, afirma José de Souza Martins, ao fazer uma leitura da obra de Lefebvre (1996).

Com efeito, “o problema da exclusão nasce com a sociedade capitalista”. O capitalismo traz como regra estruturante o desenraízamento e a exclusão. “ A sociedade capitalista desenraíza, exclui, para incluir, incluir de outro modo, segundo suas próprias regras, segundo sua própria lógica. O problema está justamente nesta inclusão”, adverte José de Souza Martins. (1997, p.32). A reinclusão no processo de mercantilização sob a lógica do capital se dá de forma precária, num movimento através do qual a sociedade repõe antigas privações e produz novas desigualdades.

Neste sentido mais do que evocar um conjunto dramas e conflitos sociais do mundo contemporâneo e um futuro de apartação social, a temática da exclusão nos coloca também diante percursos e experiências sociais produzidas historicamente no seio da sociedade capitalista e que são constitutivas de sua dinâmica. Desta forma, os dois mundos – aquele que anuncia a libertação das carências, com base no avanço dos meios econômicos e da capacidade produtiva e o outro que aprisiona homens e mulheres, reproduzindo e criando todo o tipo de privações em escala ampliada – não encontram-se separados. São faces da mesma moeda, integrados sob a lógica do capitalismo, onde as forças produtivas se desenvolvem mais rápido do que as relações sociais, onde a produção é social mas a apropriação dos resultados da produção é privada, como Marx já destacava no século XIX. Uma contradição que, nos lembra José de Souza Martins, “anuncia o descompasso histórico entre o progresso material e o progresso social” (1996).

No âmbito do mesmo movimento de desenvolvimento do capitalismo, vão se configurando ainda realidades sociais desencontradas, mergulhadas em tempos históricos distintos, num mundo cada vez mais dividido, ainda que “ligado pelos laços de deslocamento de bens e pessoas, de capital e comunicações, de produtos materiais e idéias” (HOBSBAWM, 1998, p.31)

Desta forma, o descompasso histórico entre o progresso material e o progresso social evoca o movimento de expropriação e exclusão do trabalhador com sua inclusão posterior. Inclusão forçada no processo de mercantilização da vida social, de acordo com Virgínia Fontes (1997). Ou de forma subordinada e precária, como sugere Martins (1997). Evoca também a expansão planetária do capitalismo, produzindo e recriando realidades sociais desencontradas, mergulhadas em tempos históricos distintos.

Em nosso país, o tom sombrio do desencontro entre o econômico e social encontra suas raízes no processo através do qual o capitalismo desenvolve-se, num modelo concentracionista, cujas possibilidades históricas localizam-se aqui. Ainda que integrada ao mundo global, a acumulação urbano-industrial busca alimento na particular experiência histórica da sociedade brasileira e na composição de forças sociais que integravam as estruturas de dominação que vão se constituindo no período que se segue ao fim da chamada República Oligárquica. Combatendo as teses cepalinas, Oliveira analisa o processo, destacando o fato de que a crise dos anos 30, em todo o sistema capitalista “criou o vazio” mas não a alternativa de rearticulação da reprodução de capital. “Serão as possibilidades de mudança no modo de acumulação, nas estruturas de poder e no estilo de dominação, as determinantes do processo”. (OLIVEIRA,1981,p.39).

Neste movimento, é fundamental o papel desempenhado pelo Estado. Ele está mesmo no centro do descompasso que atravessa nossa sociedade pois se é verdade que o capitalismo é marcado pelo atraso do social em relação ao econômico, aqui o econômico acelerou-se queimando etapas, mediado pelo Estado que atuou diretamente na configuração das novas estruturas de dominação, na acumulação urbano-industrial e na formação do mercado de trabalho (3).

O impacto desta mediação na configuração das cidades que então cresciam não foi pouco. As contradições urbanas devem ser compreendidas dentro do processo de “captura” dos recursos públicos, desviados fundamentalmente para fins da acumulação, com retração de investimentos na infra-estrutura e serviços urbanos. A exploração do trabalhador não restringiu-se então ao âmbito da relação capital e trabalho propriamente dita mas abarcou igualmente a esfera do Estado que assumiu um papel fundamental no somatório de extorsões que se operaram através da inexistência ou precariedade de serviços que se apresentavam como socialmente necessários a subsistência dos trabalhadores, fenômeno que Kowarick chamou de espoliação urbana. (1979)

Na verdade, todos os recursos investidos na criação das condições institucionais e na infra-estrutura de apoio à acumulação urbano-industrial e à transferência de rendas e subsídios para o setor industrial significaram o repasse de uma grande parcela da riqueza social produzida e não se fez sem ônus para o conjunto da sociedade brasileira, e em particular para os trabalhadores.

Mas por todos os cantos do mundo, a exclusão, compreendida em sua imagem de desencontro entre o econômico e social, pareceu assumir maior dramaticidade nas últimas décadas. Aqui, o processo nos aproxima das novas formas de sociabilidade capitalista, desenvolvidas no âmbito da reconfiguração do capitalismo a partir dos anos 70.

A chamada multipolarização, com o fortalecimento dos blocos econômico, bem como as mudanças que se processaram no mundo socialista, não só traduziram mas imprimiram um reconfiguração de forças, a nível internacional. Articulado a estes processos, as mudanças na base produtiva, contribuíram para que se operasse uma nova dinâmica na divisão internacional do trabalho, marcada pela transnacionalização. Aqui, se agrava o descompasso histórico nos cantos periféricos do planeta, inclusive com sua perda de poder de barganha política face ao fim da bipolarização. E é também produzida uma nova pobreza nos chamados países centrais.

Neste contexto, é que se dá a chamada crise do “Welfare State”, que na perspectiva neo-liberal é entendida naquilo que é tão somente sua expressão – crise fiscal e déficit público, sendo atribuída ao crescimento da esfera pública no que se refere à reprodução da força de trabalho. Daí, as proposições neo-liberais de volta do Estado mínimo, o que significa, de forma geral, por um lado um retrocesso nas conquistas sociais, e por outro, a apropriação do fundo público apenas pelo capital (OLIVEIRA, 1998).

Francisco de Oliveira nos adverte que a principal contradição deste movimento de internacionalização se dá na medida em que ele aponta para a desterritorialização do investimento e da renda enquanto o padrão de financiamento da reprodução do capital e da força de trabalho continua circunscrito a sua territorialidade. (1998). A outra face do mesmo movimento são os processos excludentes, ou de inclusão precária e ampliada de amplas parcelas da população, alijadas dos benefícios da riqueza social produzida. Processos que vem se materializando nas políticas econômicas atuais, que atuam no sentido de incluir as pessoas, “estritamente em termos daquilo que é racionalmente conveniente e necessário a mais eficiente (e barata reprodução do capital). E também, ao funcionamento da ordem em favor dos que dominam” (martins, 1997, p.20).

Aqui, dá-se em escala violenta, o desencontro entre o social e o econômico, onde o Estado cumpre um significativo papel, tal como na decolagem do processo de acumulação urbano-industrial. Viabiliza a continuidade da acumulação dentro dos limites colocados pela contradição referida por Francisco de Oliveira, operando através de um conjunto de ações políticas, como a desregulamentação da economia, “flexibilização” da legislação do trabalho, reformas administrativa e constitucional, obediência aos “compromissos internacionais”, dentre outras. É ainda dentro deste mesmo movimento, que podemos compreender a transferência de responsabilidade sobre os serviços sociais para a sociedade, de forma geral, e as camadas populares, em particular (PINHEIRO, 1996).

No âmbito das novas formas de sociabilidade capitalista que vem se delineando, atualizando o descompasso histórico entre o progresso material e o progresso social, a precariedade se generaliza, se inscrevendo num modo de dominação de tipo novo, fundando na instituição generalizada e permanente de insegurança, visando obrigar os trabalhadores à submissão e à aceitação da exploração (BOURDIEU, 1998). Aqui, sabemos, as prisões se acumulam e ainda que ela aproxime muitos numa experiência comum de precariedade e privações, parece afastar a todos, fazendo-nos mergulhar num universo sombrio, lançando-nos num mundo inimaginável, onde não há alternativas de escolha e liberdade. Recuperando as palavras de uma das protagonistas das misérias investigadas por Bourdieu, nossas vidas “estão suspensa como por um fio” (1997).

Estamos então diante de algo que desloca a questão para além do âmbito da economia, onde aliás, este modo de dominação ao qual se refere Bourdieu, nos seduz a permanecer, como que desviando nossa atenção. O desencontro em curso além de sugerir processos de “descarte” ou exclusão do mercado, está indicando também uma desencontro no campo do político, em especial dos direitos: do próprio trabalho mas também sociais e políticos.

Toda vez que os direitos são transformados em “custo Brasil”, que a estabilidade do funcionalismo, antes um requisito para a construção de um Estado moderno, é transformada em explicação para a dilapidação financeira do Estado, que direitos humanos, que incluem julgamentos e tratamentos iguais para todos os cidadãos, incluindo-se os que cometem crimes, são transformados em causação da violência e bárbarie, o que está em jogo é a exclusão. Não no seu sentido mais pobre, de exclusão do mercado e do emprego mas no seu sentido mais radical: o de que, agora, dominantes e dominados não partilham o mesmo espaço de significados, o mesmo campo semântico. Há uma negação- ou sua tentativa- da constestação no mesmo campo de significados, o que dilui a política e o conflito. É uma forma radical de administração, tal como a administração de um zoológico. (OLIVEIRA, 1998, p.203)

Sabemos, porém, que toda esta “epopéia do capital” não tem significado ausência de protestos e construções que sempre indicaram apostas no presente, e também em tempos melhores. A história do país no século que ficou para trás foi atravessada por lutas daqueles que questionavam as desigualdades e buscavam o fim de suas privações.. Muitas ainda estão entre nós, na penumbra, talvez. A própria narrativa “oficial”, ao ser interrogada, se trai ao documentar os dados que nos recordam o tanto de violência e manobra foi preciso para que a coesão social não se rompesse, as estruturas de dominação não explodissem e nosso descompasso histórico se sustentasse. “De 1930 para cá, em cada três anos média, houve um golpe ou tentativa de golpe no Brasil (…) Uma exclusão no campo de direitos, a partir da qual se interroga e contesta o outro”. (OLIVEIRA, 2000).

Por isso, a exclusão, em sua imagem de desencontro entre o econômico e social, é uma história que precisa “ser penteada a contrapelo”, como falou Walter Benjamim. Se compreendida em sua dimensão contraditória, elas nos evoca também os conflitos desenrolados ao longo deste processo e a manifestação concreta do desencontro, traduzida em todas as formas de privação: privação de emprego, privação dos meios de para participar do mercado de consumo, do bem estar, dos direitos, privação de liberdade e da esperança. (MARTINS, 1997, p.18)

Movendo-se no desencontro

Eu cheguei a seguinte conclusão: a terra é do latifundiário, o mar é da marinha, o céu é da aeronáutica e para as favelados só sobrou o inferno. (morador de uma favela da Penha, subúrbio do município do Rio de Janeiro)

Os deslocamentos no campo de ação onde se localizam os atores sociais que vivem nas comunidades pobres do município do Rio de Janeiro traduzem a duplicidade trazida pelo desencontro que viemos discutindo. Indicam processos de exclusão e inclusão precária. Abrigam ao mesmo tempo movimentos de enfrentamento destes processos.

A este respeito, as palavras acima, ditas por um velho morador de uma das maiores e mais populosas comunidades da cidade, nos parece emblemática. Ao recordar as várias remoções sofridas, ele traz uma percepção comum a muitos que vivem nas áreas pobres de nossa cidade e de tantas outras do país. A experiência histórica de perdas aparece nas memórias de um outro senhor, aluno de um projeto de educação de jovens e adultos desenvolvido em comunidades da cidade, que contava sobre a ordem de despejo que recebera bem no início dos anos 70: “foi um choque tão grande para mim… Este foi o primeiro despejo de minha vida”.

Estas são imagens que, mais do falar carências e vazios, evocam processos, processos de perdas. E indicam movimentos em curso, de reprodução e produção de novas desigualdades e diferenciações que atingem aqueles que experimentam as privações produzidas pelo descompasso histórico entre o progresso material e o progresso social.

Com efeito, nas favelas do município do Rio Janeiro estes movimentos vão atingindo todos, cerceando cada vez mais o campo de ação e trazendo desafios aos que buscam possibilidades de ação. Os caminhos parecem separar muitos e esgarçar antigas sociabilidades, fundadas numa história comum de luta pela produção do espaço de vida.

Diferentes templos religiosos se multiplicam, operando com a reinclusão dos “descartados”. E com eles vão se configurando cada vez mais as fronteiras que separam o “Bem” do “Mal”. E assim, temos o evangélico e o macumbeiro, o crente e o católico.

Ao mesmo tempo, o papel das lideranças comunitárias se esvazia da dimensão política que em outras épocas a caracterizara. Atuando como braço do Estado e(ou) do narcotráfico, dificilmente é percebida como expressão da vontade coletiva. Desaparece aí toda sua credibilidade.

No mundo do tráfico, as divisões criam mais do que fronteiras dentre aqueles que nele estão inseridos ou dele se aproximam. Atuam sobre a vida cotidiana dos moradores, delimitando seus passos, seu espaço e seu tempo. E mais do que isso, referenciam o horizonte das novas gerações, produzindo abismos, onde antes havia pelo menos empatia. O único inimigo visível é o “alemão”, aquele que ocupa outro território. Assim, este mundo vai detendo cada vez mais controle sobre esferas das relações sociais nestas localidades.

Este colorido cinzento possivelmente é o tom mais forte da paisagem que se delineia nestas comunidades pobres mas certamente não é o único. Dentro do mesmo processo, como outra face da moeda, o desencontro que atinge a todos, recoloca também a cada instante a ação compartilhada como caminho necessário, levando a formas de reprodução social que, ainda que precárias e subordinadas, forjam novos laços e espaços, anunciando possibilidades de ação. Estas novas formas vão sendo gestadas, reelaborando experiências históricas passadas e incorporando os novos impasses que se apresentam no campo de ação. Assim, vão crescendo as iniciativas coletivas, muitas delas produzidas fora da esfera que antes assumia o desenvolvimento comunitário: as associações de moradores. Grande parte trazidas por instituições ou grupos religiosos, de diferentes orientações, que vêm ampliando seu raio de ação, reforçando sua antiga proposta assistencial mas atuando cada vez mais no desenvolvimento social. Têm seus projetos bastante valorizados já que os moradores das comunidades sentem-se mais seguros participando de atividades realizadas por instituições nas quais confiam. Porém, há também um conjunto de grupos ou entidades leigas que se voltam para as áreas de educação, saúde, cultura e lazer (4).

Freqüentemente, aquelas iniciativas que apresentam mais visibilidade, mas nem sempre maior fôlego, recebem recursos do próprio poder público ou mesmo administram projetos governamentais, cumprindo um papel que outrora era executado pelo Estado. Mas talvez não seja exagerado afirmar que todas experimentam uma grande instabilidade no que se refere aos recursos financeiros e humanos, precisando redobrar seus esforços para manter suas atividades e serviços.

Tais iniciativas estão desdobrando-se em novos caminhos de ação coletiva e possivelmente criando também outras formas de sociabilidade. Isso porque, são produzidas no âmbito dos processos de inclusão precária que trazem novas imagens de desigualdade e pobreza, fazendo crescer os desafios das populações empobrecidas e levando-as a necessidade reinventar suas ações coletivas. Nesta nova sociabilidade, antigas referências, tão caras aos moradores das comunidades, estão sendo reelaboradas, abrindo espaços a práticas diferenciadas e assumindo outros significados. Possivelmente, família e trabalho estão entre as referências que passam por expressivos processos de mudança.

Vários estudos sobre a dinâmica social das comunidades pobres destacaram o papel da família enquanto unidade de produção e consumo, onde são elaboradas as estratégias de sobrevivência no urbano (5). No entanto, de fins dos anos 70/anos 80 para cá, muita coisa mudou na paisagem das comunidades e várias destas mudanças tiveram especial impacto sobre as famílias trabalhadoras. Aumentou o número de creches, ainda que este serviço esteja aquém das necessidades da população. O desemprego vem crescendo, agindo de forma direta e violenta nas famílias. Explode não só com o orçamento e os arranjos domésticos mas também com as relações familiares, recolocando aí o papel dos homens trabalhadores. Levando também cada vez mais as mulheres a saírem em busca de trabalho. Atuando ainda sobre a vida das crianças e jovens, fazendo aumentar sua procura precoce por um oportunidade de trabalho, num mercado que torna-se mais e mais limitado e seletivo. Alcoolismo e dependência química, depressão, abandono escolar, violência familiar são imagens de problemas, antes presentes nas famílias trabalhadoras, que têm se acentuado nos últimos anos. Problemas que os serviços de educação, saúde e assistência social não chegam a responder. Tornando-se crônicos e exigindo um investimento constante de recursos, eles são relegados a segundo plano e deixados sob o domínio de iniciativas da sociedade, especialmente aquelas atuantes nas comunidades.(6)

E aí cabe nos perguntar: até que ponto estas iniciativas não vem ocupando parte do papel antes assumido pela família trabalhadora na reprodução social de seus membros? Temos claro que esta reprodução nunca reduziu-se ao núcleo doméstico e que a família trabalhadora constitui-se em escala ampliada, agregando parentes e muitas vezes vizinhos. Porém, possivelmente, mais do que nunca esta reprodução está sendo assegurada também através de outras esferas. Especialmente nas igrejas e grupos religiosos, onde ela, redefinida, encontra uma rede de apoio. Ou mesmo através do mundo local do narco-tráfico, por onde alguns dos membros familiares circulam ou são estreitamente ligados. Com efeito, sabemos que a rede do narcotráfico cresce e com ela aumenta o número de pessoas que aí ingressam. Vivas, representam uma alternativa a mais no orçamento familiar. Mortas ou mesmo presas, significam uma violenta perda objetiva e subjetiva para as famílias.

Já quando lançamos um olhar sobre a referência do trabalho na vida das comunidades, não podemos deixar de lembrar a época em que ele marcava a identidade de seus moradores. Dedicando-se em sua maioria a diferentes atividades do setor de serviços, ou atuando no mercado informal, estes moradores dificilmente se reconheciam por seu lugar na produção. Era o espaço de moradia comum e a luta pela sobrevivência no urbano que reforçava seus vínculos. No entanto, a inserção subordinada destes moradores no ordenamento de uma sociedade, onde a carteira de trabalho era a identidade do trabalhador, bem como a localização desigual e a estigmatização das comunidades no espaço urbano, deu ao trabalho um significado especial, que vai além de sua importância na sobrevivência econômica. Na dinâmica das relações locais e no confronto com poderes supralocais, especialmente a polícia e autoridades públicas, ele afirma o lugar e a identidade do trabalhador, aparecendo articulado à honra. A honra aqui encontra seu sentido nas relações de reciprocidade e na hierarquia que marcam as relações que em tornam do qual giram as relações internas e aquelas travadas com os poderes extra locais. (ALVITO, 1996) (7).

Nos novos tempos, o valor trabalho não deixa de sofrer o impacto das mudanças, que se desdobram mais especialmente através do avanço do desemprego e a expansão do narcotráfico. Numa sociedade onde há violenta diminuição de alternativas de emprego, e mesmo de trabalho no mercado informal, os mecanismos de controle social são redefinidos, não se apresentando mais diretamente associados à inserção dos pobres na produção propriamente dita. Confinada na gaveta, sem perspectiva de uso, a carteira de trabalho perde seu significado especial.

Com a expansão do tráfico, mais do que nunca as comunidades de baixa renda aparecem associadas à violência, tornando qualquer pobre suspeito. A confusão de imagens entre trabalhador e bandido assume maior dimensão, desdobrando-se na dinâmica das comunidades, produzindo novas alternativas e trazendo mudanças às redes de relações locais e extra locais, com novas práticas e valores se revelando.

Com efeito, conforme diminuem o número daqueles têm emprego e mesmo trabalho, e o mundo do narcotráfico se dissemina, muitos circulam neste mundo, por onde asseguram sua sobrevivência e sua afirmação no espaço local. Mal podem sair de suas comunidades, sem correr o risco de serem mortos mas acessam os bens de consumo material e simbólico, não deixando a forma através da qual se inserem precariamente no sistema.

Porém, este não é o único, e tampouco o caminho mais acolhido pela maioria dos moradores. Torna-se expressiva aqui a multiplicação das igrejas evangélicas, há muito tempo já existentes nestas áreas, mas nunca tão fortes e numerosas.

(…) como não havia ambiguidade, o trabalhador não precisava reforçar sua identidade de não bandido através do pertencimento a um in-group de “crentes”, que por definição, encarnam o Bem contra o Mal e vivem de acordo com normas de comportamento extremamente rígidas, marcando sua diferença através de vestimentas mais longas, cortes de cabelo etc. (souza, 1996, p.155).

A integração através de grupos religiosos vai configurando-se então como alternativa que traz então ganhos objetivos e subjetivos. Inserido num igreja ou grupo religioso, o morador não é mais um desempregado. Pode ser um “trabalhador a serviço de Jesus” e ainda conta com a possibilidade de ter acesso a algum benefício (serviços de assistência social ou mesmo uma ajuda de custo).

Os jovens vão ao encontro de projetos que acenam com perspectivas de inserção social e profissional. São iniciativas voltadas para a complementação ou apoio da escolarização ou que oferecem cursos e atividades que buscam promover a entrada da juventude no mundo do trabalho, como educadores, artistas, locutores de programas radiofônicos etc. Para além das possibilidades entrevistas pelos jovens nestes cursos, sua participação nestes espaços os desloca do lugar do suspeito , diminuindo a ambigüidade que cerca sua imagem.

Conforme crescem o número de iniciativas sociais, muitos moradores integram-se também a programas de desenvolvimento local existentes nas comunidades, demarcando seu espaço como “trabalhador na comunidade”.

Aumenta então o número dos chamados trabalhadores sociais. São principalmente educadores comunitários que possuem um vínculo precário, sem nenhuma estabilidade e garantia trabalhista. Muitos participam dos projetos de forma voluntária. Atuam, porém, em vários serviços, levando para seu trabalho aquilo que nenhum curso ou programa de capacitação é capaz de oferecer: sua experiência no trabalho comunitário e o conhecimento das relações existentes nas comunidades.

Os traços aqui desenhados expressam algumas das contradições do desencontro entre o social e o econômico, bem como os deslocamentos produzidos no campo de ação que ele configura. Traduzem processos de precariedade. Formas precárias e instáveis de inclusão. E anunciam também os caminhos através dos quais aqueles que são chamados “excluídos” movem-se no campo de ação. Alguns individuais, outros coletivos. Alguns configurando o movimento que empurra as pessoas para dentro, como reprodutores mecânicos do sistema. Outros, abrindo espaço à interpretação crítica de um desencontro que se repõe e forjando novas alternativas para superá-lo.

Aproximando-se do campo do trabalho social

Voltando ao início, aquele que é nosso interesse maior, avaliamos que o campo do trabalho social deve ser compreendido a partir do desencontro histórico entre o econômico e social, onde se configuram processos que trazem, recuperando Martins, formas pobres, insuficientes e até indecentes de inclusão, dentro das quais os trabalhadores sociais se movem. É, portanto, um campo de ação que foi se configurando em meio a processos de perdas e privações e, como lembrou Francisco de Oliveira, de supressão de direitos. Um campo dominado por uma precariedade que se generaliza cada vez mais, inscrevendo-se possivelmente num modo de dominação de tipo novo, como nos sugeriu Bourdieu. Um campo então atravessado por diferentes forças sociais, que expressam interesses diversos e, muitas vezes, divergentes. Os limites deste campo estão dados pelo movimento mais amplo que inclui precária e instavelmente não apenas aqueles que vivem nas comunidades mas também vários atores ligados às atividades sociais. Mas, estes limites vão se configurando, no tempo, também de acordo com as relações do Estado com as comunidades e os trabalhadores, e a maior ou menor possibilidade destes últimos abrirem brechas no confronto. Isso porque são relações de forças sociais em relação

Recuperando a interpretação que Renato Ortiz faz da noção trabalhada por Bourdieu, lembramos:

O campo se particulariza pois, como um espaço onde se manifestam relações de poder, o que implica afirmar que ele se estrutura a partir da distribuição desigual de um quantum social que determina a posição que um agente específico ocupa em seu seio. (ortiz, 1994)

Aqui encontram-se não apenas técnicos e funcionários das instituições públicas e os agentes comunitários, contratados ou não por programas públicos, mas também profissionais que atuam em ONG´s e cada vez, mais atores das Universidades. A despeito de conjunturalmente se unirem em torno de projetos comuns, tais agentes ocupam posições diferenciadas, na sociedade e mais particularmente no campo. Assim, ele está longe de ser um espaço homogêneo e com relações horizontais (8).

Porém, os confrontos existentes no campo e as experiências aí produzidas podem abrir caminhos à gestação de novas práticas e formas de ação coletiva. Possibilidades de ação, mediadas pelas experiências e conhecimentos daqueles que historicamente vêm sofrendo processos de perdas e lutando pelo fim de suas privações. Avaliamos então que, por estarem situados em pontos de maior contradição e conflitos neste campo de desencontro, os trabalhadores do social, moradores das comunidades, têm maior possibilidade de interpretação crítica deste espaço e de uma ação potencializadora, não só no campo mas especialmente fora dele, para além de seus limites, com uma participação transformativa na sociedade.

1 Recuperamos aqui o conceito de experiência do historiador E.P. Thompson, que em sua obra indica um conjunto de mediações que fundamentais à prática histórica e social, uma vez que atravessam as ações dos homens referenciando o seu agir sobre uma situação determinada. (1981, 1987)

2 No primeiro caso, por exemplo, Aldaíza Sposati que lembra que a exclusão não é um fenômeno novo mas que possui uma forte presença no fim do século XX, por razões outras, que não passam pela economia. Ela assume o caráter de um conceito/denúncia, da ruptura da noção de responsabilidade social e pública construída a partir da Segunda Guerra e a quebra da universalidade da cidadania conquistada no Primeiro Mundo (1999). No segundo grupo, situamos o francês Serge Paugam que destaca o fato da exclusão ser usada para designar realidades diferentes e ambíguas, levando então à necessidade de agregar a ela outros conceitos, como desqualificação social, a partir do qual se pode examinar um feixe de dimensões que estão em jogo quando se discute exclusão: trajetória, identidade e território(1999). No último caso, é possível situar Castel e José de Souza Martins. O primeiro lembra que o uso da noção de exclusão leva ao risco de não se recuperar trajetórias que permitem compreender rupturas em relação a posicionamentos anteriores, caindo-se então na “armadilha” de “delimitar zonas de intervenção que podem dar lugar às atividades de reparação” (1997). O segundo adverte sobretudo para o fato de que ao discutir exclusão se deixa “de discutir as formas pobres, insuficientes e, às vezes, até indecentes de inclusão”(1997).

3 E não foi só aí que ele avalizou o processo. Operou na fixação de preços e na distribuição de ganhos e perdas entre os diversos estratos capitalistas. Na esfera da produção, subsidiou atividades produtivas e investiu na produção e na infra-estrutura necessária à acumulação. Enfim, constituiu-se no eixo através do qual foi possível transferir recursos e ganhos para a empresa industrial e viabilizar o funcionamento do sistema de forma não automática e livre das regras do mercado (oliveira,1981).

4 Estas observações referentes às iniciativas sociais nas comunidades são baseadas na pesquisa Redes Sociais de Solidariedade na Leopoldina, desenvolvida pelo CEPEL (Centro de Estudos e Pesquisa da Leopoldina), 1997-1999.

5 Dentre estas estratégias, impunha-se muitas vezes a não inserção das mulheres no mercado de trabalho, obedecendo a uma necessidade colocada no âmbito da própria família e aí respondida. A respeito das reflexões voltadas para a questão da família, destacam-se o trabalho de Eunice Durham (1984; 1988) e Teresa Pires Caldeira (1984), dentre outros.

6 É tendo em vista tais problemas sociais, que Valla discute a necessidade de um duplo caminho no âmbito das relações Estado e Sociedade Civil: não se abre mão do confronto com o Estado, no sentido de exigir investimentos em políticas sociais mas ao mesmo tempo, iniciativas da sociedade civil organizam-se, respondendo a tais problemas sociais, que elas encontram-se em melhores condições de solucionar. A organização de tais iniciativas abre caminho a um fortalecimento da sociedade civil e na organização de seus setores, de forma a demandar maiores investimentos do Estado ( VALLA 1998 ; 2000).

7 Em seu artigo A Honra de Acari, Marcos Alvito chama atenção deste fato, destacando que a honra não é igual para todos, depende da posição da pessoa na hierarquia local e da observância, por parte da mesma de um comportamento condizente com sua posição em termos de status, idade ou gênero. (ALVITO, 1996).

8 Uma das zonas de atrito mais aparente está na relação entre os agentes das organizações não governamentais, e entre estes e os representantes do Estado, especialmente se considerarmos a disputa de recursos. Ao nosso ver, porém, este confronto não traduz a contradição fundamental do campo em questão. Cada vez mais as instituições do Estado se apropriam de práticas e discursos das ONG´s e essas absorvem orientações neoliberais do Estado, num diálogo cujos efeitos devem ser amplamente discutidos. Não se trata aqui de desvalorizar todo o trabalho das ONG´s, e muito menos todas elas mas de interrogar-se a respeito da nova forma de relação entre Estado e Sociedade Civil, e o papel nela ocupado pelas ONG´s no que se refere a execução e desenvolvimento de políticas sociais.